Há alguns dias eu estava conversando com um querido amigo sobre a importância da apologética para lidarmos com as boas perguntas e dúvidas sinceras do nosso próximo – filhos, cônjuge, amigos, colegas etc. Apologética é a disciplina teológica e filosófica dedicada a responder racionalmente as objeções intelectuais, morais e históricas que se contrapõem à fé cristã. A apologética não é mero debate retórico: envolve investigação filosófica, análise histórica, compreensão hermenêutica e sensibilidade pastoral. É uma disciplina muito relevante tanto para a vida interna da comunidade da fé quanto para o diálogo público. O labor apologético se ocupa de formular razões racionais e evidências; responder as críticas e objeções; esclarecer mal-entendidos sobre doutrinas e práticas religiosas; equipar crentes para comunicar a fé com clareza e respeito.
Entre os mais conhecidos nomes da apologética no mundo estão C. S. Lewis, G. K. Chesterton, Alister McGrath, William Lane Craig, Alvin Plantinga, Norman Geisler, R. C. Sproul e muitos outros. Por essas mãos foram produzidas obras indispensáveis e consagradas como Cristianismo Puro e Simples; Ortodoxia; Filosofia e Cosmovisão Cristã; Deus, a Liberdade e o Mal; O Delírio de Dawkins.
O jornalista investigativo norte-americano que se tornou conhecido por seus livros de apologética cristã, Lee Strobel fez carreira como jornalista investigativo no jornal Chicago Tribune. Strobel se descrevia como ateu, mas quando sua esposa se converteu ao cristianismo, ele decidiu investigar a fé cristã usando métodos jornalísticos.
Depois de quase dois anos entrevistando especialistas (historiadores, teólogos e médicos), concluiu que as evidências apontavam para a veracidade da ressurreição de Jesus e acabou se convertendo ao cristianismo. Em Defesa de Cristo e Em Defesa da Fé são obras apologéticas em formato de investigação jornalística com linguagem acessível que abordam temas como a historicidade de Jesus; a confiabilidade da Bíblia; a ressurreição; fé e ciência. Strobel, que foi pastor de ensino na Willow Creek Community por vários anos, vendeu milhões de cópias e também teve suas obras adaptadas para o cinema.
Tenho certas reservas com o substantivo “defesa” quando atribuído à fé. Não por capricho linguístico, mas por zelo teológico. Na teologia, fé não é sinônimo de crença. Fé é discernimento e certeza que vêm de Deus. Não é apenas cognição, é mistério, é Presença. Crença é só intelecto, é “Compreendo, logo existe!”. Todavia, fé é: “Sim, existe!” Crença tem concorrência, pois há muitas disponíveis. O misticismo oferece crença para todos os gostos, mas fé vem de Deus, vem com Deus e permanece. Cristo nos basta por meio da fé!
O ponto central de Strobel não é uma “defesa”, como se Cristo e a fé fossem vulneráveis. Strobel promove um fórum para que perguntas comuns e difíceis sejam respondidas. Enquanto o seu primeiro livro investiga se o cristianismo é verdadeiro, o segundo título aborda as principais objeções contra a fé cristã: Se Deus é bom, por que existe sofrimento? Milagres são possíveis? A ciência não torna Deus desnecessário? Como um Deus amoroso enviaria pessoas para o inferno? A igreja não é responsável por muitos males na história? Por que Deus parece oculto? Não existem muitos caminhos para Deus? A fé não é apenas uma muleta psicológica? Cada capítulo traz uma entrevista com especialistas em filosofia, teologia ou ciência. Strobel argumenta que, embora existam mistérios, as objeções contra o cristianismo não são suficientes para invalidar a fé, e que a cosmovisão cristã oferece respostas racionais e coerentes para as grandes questões humanas.
Strobel não apenas oferece razão cognitiva, mas um profundo testemunho de encontro com o Cristo vivo. Essa é a conclusão de Strobel, a fé se ancora na Presença misteriosa e real dAqule que vive. Sua jornada não foi apenas intelectual, mas também existencial e espiritual. Embora a estrutura de suas obras siga um método investigativo, ele insiste que o cristianismo não pode ser reduzido a uma conclusão lógica ou a um exercício puramente racional. A fé cristã não é um problema a ser examinado, afinal a cognição não esgota a questão da fé. A fé é uma realidade relacional. Observando a transformação na vida de sua esposa, Strobel relata que o cristianismo dela não era apenas uma adesão intelectual a uma doutrina, mas um relacionamento vivo com Cristo. Cristo mudara o caráter, as atitudes e as prioridades dela. Essa experiência o levou a perceber que o cristianismo afirma algo que vai além de uma tese histórica.
Finalmente, do convencimento à conversão, Strobel relata que houve um momento em que as evidências acumuladas tornaram a rejeição do cristianismo intelectualmente difícil. Contudo, ele percebeu que aceitar essas evidências exigia mais que concordância mental. Segundo ele, a decisão de confiar em Cristo envolve também rendição pessoal. Por isso, sua conversão não é descrita apenas como a aceitação de um argumento vencedor, mas como um ato de entrega. Em suas próprias palavras em diversas entrevistas, ele afirma que não apenas chegou à conclusão de que Jesus ressuscitou, mas que passou a experimentar a presença de Cristo em sua vida. Conhecendo sobre Cristo ele conheceu Cristo [pessoalmente]. Da mente para o coração. Nesse sentido, sua jornada reflete a convicção de que o cristianismo não é apenas um sistema de ideias, mas uma realidade vivida.
Agostinho de Hipona, em Confissões, descreve que a fé não se reduz a um convencimento racional. Uma de suas ideias mais famosas resume bem essa integração: “Crê para compreender e compreender para crer.” C. S. Lewis distingue duas formas de conhecer algo: Saber que o mel é doce (conhecimento teórico) e provar o mel (experiência). Para Lewis, o cristianismo envolve ambas as coisas. “Provai e vede que o Senhor é bom.” (Sl 34.8) Na caminhada da fé é preciso evitar dois extremos: o fideísmo, que despreza a razão e o racionalismo religioso, que reduz a fé a mera lógica.
A tradição bíblica e a experiência de pensadores cristãos ao longo da história mostram que a finalidade da apologética vai muito além de “ganhar debates”. A apologética é uma ferramenta para remover obstáculos que impedem as pessoas de enxergar a beleza do evangelho e, assim, abrir caminho para um encontro real com o Senhor Jesus. “Estejamos sempre preparados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que temos, mas com mansidão e respeito…” (I Pedro 3.15-16). Que haja em nós testemunho humilde afinal, defender a fé não significa tratar o outro como adversário a ser derrotado, mas como pessoa a ser amada. O objetivo não é provar superioridade intelectual, e sim servir ao próximo, ajudando-o a considerar seriamente a verdade do evangelho. A verdade não é apenas um exercício da mente, mas também um ministério do coração. Assim Cristo se aproximou da humanidade.
Pr. Ramon Márcio de Oliveira
Diretor-executivo adjunto da CBM

No responses yet