“Dedique-se à leitura pública da Escritura, à exortação e ao ensino.”
1 Timóteo 4.13

Tenho receio do pastor que sempre tem alguma coisa para dizer, mas quase nunca tem alguma coisa nova para aprender.

O ministério favorece esse perigo.

Depois de alguns anos pregando, acumulamos sermões, cursos, livros lidos, experiências e respostas. Certos textos bíblicos já possuem esboços prontos em nossa cabeça. Algumas perguntas recebem respostas quase automáticas.

Isso pode parecer maturidade.

Às vezes é apenas repetição.

O pastor continua ensinando, mas parou de aprender.

E quem para de aprender começa, pouco a pouco, a oferecer à igreja apenas aquilo que já sabe.

Paulo escreveu a Timóteo: “Dedique-se à leitura”. Na mesma frase aparecem a exortação e o ensino. A relação merece atenção.

Quem ensina precisa estudar.

Parece óbvio. Nossa agenda pastoral, porém, diz outra coisa.

Temos reuniões, visitas, aconselhamentos, planejamento, administração, eventos, mensagens para responder e decisões para tomar. Acrescente a isso as exigências recentes de comunicação digital. Agora o pastor também precisa pensar em transmissão, redes sociais, vídeos e conteúdo.

Quando falta tempo, o estudo costuma pagar a conta.

Isso me preocupa.

Nas últimas décadas, incorporamos ao ministério muitas ferramentas úteis de administração e liderança. Aprendemos sobre planejamento, gestão de equipes, comunicação e organização.

Há ganhos nisso. Uso vários deles.

O problema surge quando o pastor começa a pensar como administrador durante a semana inteira e reserva algumas horas para preparar uma fala religiosa no domingo.

Pastores precisam liderar.

Mas fomos chamados também para ensinar.

Paulo inclui entre as qualificações do pastor a capacidade de ensinar. Isso exige mais do que boa comunicação. Um homem pode falar muito bem e ter pouco a dizer.

Eloquência não substitui conteúdo.

O púlpito denuncia, cedo ou tarde, a pobreza da biblioteca.

Por isso, o pastor precisa continuar aluno.

Aluno das Escrituras, antes de tudo.

Nossa familiaridade com a Bíblia pode se tornar perigosa. Já sabemos como termina a história. Conhecemos os personagens. Lembramos os versículos. Temos posições teológicas estabelecidas.

Então corremos os olhos pelo texto em vez de lê-lo.

Procuramos nele aquilo que já sabemos.

O texto deixa de nos surpreender porque chegamos diante dele com a resposta pronta.

Precisamos recuperar a disposição de perguntar.

Por que o autor escreveu isso?

O que vem antes?

O que vem depois?

O que essa palavra significava para os primeiros leitores?

Como esse texto se relaciona com o restante das Escrituras?

O que estou deixando de perceber porque já preguei essa passagem cinco vezes?

E há uma pergunta ainda mais pessoal:

O que essa Palavra precisa corrigir em mim?

Estudo bíblico pastoral começa antes do sermão.

A Palavra precisa formar o pregador antes de alimentar a congregação.

Mas também acredito que nossa leitura precisa ultrapassar as paredes da biblioteca teológica.

O pastor cuida de gente.

E gente vive dentro de uma história, de uma cultura e de uma rede de ideias.

Por isso, leia história.

Ela cura rapidamente nossa mania de achar que todos os grandes problemas começaram na nossa geração.

Leia filosofia.

Você começará a perceber que muitas frases repetidas pela cultura carregam ideias muito mais antigas do que parecem.

Leia boa literatura.

Um romance pode nos colocar durante algumas horas dentro da experiência de alguém muito diferente de nós.

Leia sobre comportamento humano.

Conheça ciência o suficiente para não falar bobagem em nome da fé.

Leia autores com os quais concorda.

Leia também alguns que incomodam você.

Não para cultivar dúvida artificial. Para testar argumentos, perceber pontos cegos e aprender a pensar.

O pastor não precisa ser especialista em tudo.

Aliás, desconfio de quem fala como especialista sobre tudo.

Mas precisa desenvolver curiosidade.

Precisa conseguir olhar além de sua área imediata e fazer conexões. Precisa compreender um pouco melhor o tempo em que sua igreja está vivendo.

Nosso povo passa a semana ouvindo ideias sobre identidade, sexualidade, dinheiro, felicidade, sofrimento, política, tecnologia, família e sucesso.

Essas ideias chegam ao culto junto com eles.

Uma exposição bíblica fiel precisa conhecer o texto. O pastor também precisa conhecer as perguntas das pessoas que estão ouvindo.

Há ainda um desafio recente.

A inteligência artificial tornou muito fácil parecer que estudamos.

Em poucos segundos, conseguimos obter resumos, estruturas, referências, comparações e sugestões de aplicação. É uma ferramenta útil. Eu mesmo reconheço seu valor.

Mas exatamente aí mora o perigo.

Uma ferramenta que auxilia o estudo também pode substituir o esforço de pensar.

E há coisas que só acontecem durante esse esforço.

Ler uma página três vezes.

Não compreender um argumento.

Voltar ao texto.

Discordar do autor.

Consultar outra fonte.

Mudar de opinião.

Fazer uma anotação.

Perceber uma conexão dias depois.

Esse processo forma o pensamento.

Podemos receber uma resposta pronta sem termos sido formados pela busca.

Para um pastor, isso custa caro.

Porque a igreja precisa de mais do que conteúdo bem organizado. Precisa de um pregador que tenha lutado com o texto, pensado sobre ele, orado sobre ele e permitido que aquela verdade atravessasse primeiro sua própria vida.

A tecnologia pode ajudar a organizar a mesa.

Ela não deveria ocupar a cadeira do estudante.

Também precisamos abandonar uma desculpa frequente:

“Não tenho tempo para ler.”

Entendo.

Há fases do ministério em que o tempo realmente fica apertado. Emergências acontecem. Famílias exigem cuidado. Igrejas atravessam crises.

Mas se durante anos nunca encontramos tempo para estudar, temos um problema de prioridade.

Aquilo que consideramos essencial acaba encontrando espaço na agenda.

Talvez seja preciso participar de menos reuniões.

Talvez alguma tarefa precise ser delegada.

Talvez seja necessário diminuir o tempo nas redes sociais.

Talvez precisemos simplesmente colocar a leitura no calendário e protegê-la.

Porque ninguém se torna um pastor melhor apenas acumulando anos.

Ter vinte anos de ministério pode significar vinte anos de crescimento.

Também pode significar um ano de aprendizado repetido vinte vezes.

Experiência ajuda muito.

Experiência examinada ajuda ainda mais.

Quero envelhecer no ministério sem envelhecer intelectualmente por dentro.

Quero continuar encontrando perguntas que ainda não sei responder.

Quero continuar mudando de opinião quando as Escrituras demonstrarem que preciso mudar.

Quero continuar aprendendo com pessoas mais velhas e, cada vez mais, com pessoas mais jovens.

Quero conservar a humildade de abrir um livro e descobrir que alguém pensou melhor sobre determinado assunto do que eu.

Pastor, volte aos livros.

Volte principalmente ao Livro.

Estude quando houver sermão para preparar e também quando não houver.

Leia sem transformar cada página em conteúdo para publicar.

Aprenda alguma coisa que nunca renderá uma pregação.

Continue curioso.

Continue fazendo perguntas.

Continue discípulo.

Quem sobe regularmente ao púlpito para ensinar a igreja precisa continuar encontrando tempo para sentar e aprender.

No amor de Cristo,
Pr. Márcio Soares

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