Falar de graça é tocar no coração do Evangelho. A graça não é apenas um conceito doutrinário, mas a forma como Deus se relaciona com o ser humano caído. O salmista afirma: “Não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos recompensou segundo as nossas iniquidades” (Sl 103.10). Essa declaração rompe com toda lógica meritória. Se Deus agisse conforme nossos atos, a história humana seria marcada apenas pelo juízo. Contudo, a graça inaugura outra lógica: a do favor imerecido, da misericórdia que antecede o arrependimento e da restauração que supera a culpa.

Russell Shedd expressa essa realidade de maneira pedagógica ao afirmar que a graça se revela “no bom humor, quando um filho inocente recebe o castigo que outro filho merecia” (Criação e Graça). A imagem é simples, mas profundamente cristológica. Ela aponta para a substituição, para o centro da fé cristã: alguém sofre não por culpa própria, mas em favor de outro. No coração da graça está a cruz, onde Cristo assume o lugar que não lhe pertencia para que recebêssemos aquilo que jamais poderíamos conquistar por nós mesmos.

Ao tratar da graça, Dietrich Bonhoeffer, faz uma distinção fundamental entre a “graça barata” e a “graça preciosa”. Para ele, a graça barata é aquela que perdoa sem arrependimento, consola sem transformação e anuncia salvação sem discipulado. Já a graça preciosa, afirma Bonhoeffer, “é o chamado de Jesus Cristo ao qual o discípulo deixa as redes e o segue” (Discipulado). A graça não anula a seriedade do pecado, mas o enfrenta com redenção. Ela não minimiza a cruz; ela nasce dela.

Assim, a graça não é permissividade, mas reconciliação. Não é indiferença moral, mas amor que assume o custo. Deus não nos trata segundo nossos pecados porque decidiu tratar seu Filho segundo eles. Essa inversão é o escândalo e a beleza do Evangelho. A graça nos alcança como dom, mas nos convoca a uma vida transformada, marcada pela gratidão, pela obediência e pela confiança naquele que nos amou primeiro.

Em um mundo orientado por mérito, desempenho e recompensa, a graça permanece como sinal do Reino de Deus: um Reino onde o perdão precede o acerto, onde o amor vem antes da mudança e onde a esperança nasce não do que fazemos, mas do que Deus já fez em Cristo.

Rodrigo Lima Borges, é advogado, pastor e professor

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