O Salmo 127, um dos chamados cânticos de romagem ou de peregrinação – uma coleção que vai do salmo 120 até o 134 – era um dos hinos cantados a caminho do Templo nas grandes festas e muitas vezes entoados pelas caravanas que se cruzavam no deserto.
Neste salmo didático, que se tornou um dos mais populares, a ênfase está na insuficiência do esforço humano sem a bênção divina, com uma abordagem do tema na esfera familiar. Trata-se da demonstração da dependência da família do seu edificador: Deus.
Deus é o edificador da família (v. 1) – “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam…”
O termo traduzido para “casa” tem significado abrangente, não se refere apenas a uma estrutura física, e o contexto demonstra que a família está em foco.
Embora hoje se pense que a família seja constituída pela vontade humana, este não é o ensino do Salmo.
A Bíblia nos ensina a viver em estrita dependência de Deus em todos os aspectos da vida, inclusive o familiar.
No segundo livro das Crônicas há uma oração de confissão de dependência do favor divino diante do inimigo:
“Ah! Nosso Deus […] em nós não há força para resistirmos a essa grande multidão que vem contra nós, e não sabemos nós o que fazer; porém os nossos olhos estão postos em ti.” (II Crônicas 20.12).
Você já imaginou como seria bom se esta fosse, no contexto de guerra em que vivemos, a oração da família todos os dias?
Quando entendemos que Deus é o Edificador, passamos a ver e a viver nossas vidas e nossas famílias como algo que não existe por si, afinal, não foi isto o que Jesus ensinou?
“Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.” (João 15.5).
A família que permanece no Senhor vai sendo edificada, construída, reconstruída, ampliada até se tornar uma fortaleza em Deus.
Deus é o guardador das famílias (v. 1) – “Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.”
O salmista passa da família para as famílias. A cidade é onde elas estão. Isto mostra que as bênçãos da edificação e da guarda do Senhor não são restritas, mas alcançam os que cultivam na família os princípios e valores da Palavra.
Vivemos em um mundo obcecado pela segurança. Com razão. Pais atormentados pelas rotinas dos filhos. Os que podem, fazem investimentos em tecnologia ou contratam empresas de segurança privada face à insuficiência da segurança pública.
Mas a verdade é que a melhor aplicação neste sentido é viver sob a guarda do Pai Celestial. Foi neste sentido que Jesus orou:
“Pai santo, guarda em teu nome os que me deste, para que eles sejam um, assim como nós. Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal.” (João 17.11-24).
O Senhor é a única certeza de segurança em todos os momentos. Por isso o Salmista pode afirmar:
“O meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra. […] Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não tosquenejará. […] O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita. O sol não te molestará de dia, nem a lua, de noite. O Senhor te guardará de todo mal; ele guardará a tua alma. O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.” (Salmo 121).
Você já imaginou quão maravilhoso é ter um guardador assim para a sua família?
Deus é o provedor da família (v.2) – “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem.”
O esforço humano é inócuo sem o sustento, sem a provisão divina. O salmista diz:
“Deito-me e pego no sono; acordo, porque o Senhor me sustenta.” (Salmo 3.5).
“Eis que Deus é o meu ajudador, o Senhor é quem me sustenta a vida.” (Salmo 54.4).
O reconhecimento da fragilidade, da incapacidade de prover as próprias necessidades (e as familiares) é que levou o salmista a confessar:
“O Senhor sustém os que vacilam e apruma todos os prostrados. Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a mão e satisfazes de benevolência a todo vivente.” (Salmos 145.14-16).
Conscientes da nossa debilidade, precisamos de, no âmbito familiar, definir as prioridades. O que buscar em primeiro lugar? Sucesso profissional? Bens materiais? Formação acadêmica?
Não seria melhor buscar o Reino de Deus e sua justiça e esperar que tudo o mais venha por acréscimo? O salmista compreende bem esta verdade ao exclamar:
“Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo.” (Salmos 27.4).
Na Casa do Senhor, isto é, na presença DELE, não haverá falta de provisões.
Deus é o dono da família (v. 3) – “Herança do Senhor são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão.”
A família foi o meio eleito preferencialmente por Deus para exercer a mordomia na criação dos filhos que são d’Ele. Os pais são apenas mordomos.
O termo traduzido por herança tem a ideia de compartilhamento, não de sucessão definitiva. Deus não morre, então ele permanece proprietário, mas concede a posse.
“Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.” (Ezequiel 18.4).
“Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.” (Salmo 24.1).
No exercício desta mordomia, os pais reconhecem que seus filhos são dádivas de Deus. Assim foi com os patriarcas, muitos deles não muito exemplares na conduta e na criação, porém sempre conscientes de que os filhos são presentes temporários, herança de um Deus que nunca morrerá.
Veja este exemplo, de Jacó:
“Daí, levantando os olhos (Esaú), viu as mulheres e os meninos e disse: Quem são estes contigo? Respondeu-lhe Jacó: Os filhos com que Deus agraciou a teu servo.” (Gênesis 33.5).
Posteriormente, José dará uma resposta semelhante aos seu pai:
“Tendo Israel visto os filhos de José, disse: Quem são estes? Respondeu José a seu pai: São meus filhos, que Deus me deu aqui.” (Gênesis 48. 9).
Para ter os filhos como galardão do Senhor, cabe aos pais amá-los e protegê-los. Só assim estará garantida a perpetuação dos valores familiares, a continuação do cultivo dos valores da Palavra de Deus.
Esta era a preocupação esboçada na Lei mosaica:
“Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o Senhor, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir; para que temas ao Senhor, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados. Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse o Senhor, Deus de teus pais. Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Deuteronômio 6. 1-7).
Deus é quem define as condutas da família (v. 4, 5) – “Como flechas na mão do guerreiro, assim os filhos da mocidade. Feliz o homem que enche deles a sua aljava; não será envergonhado, quando pleitear com os inimigos à porta.”
Deus define as condutas familiares através da sua Palavra.
Mas os pais são os instrumentos usados por Deus para instruir os filhos; estes assim cuidados e instruídos se tornam tão importantes para os pais como era a flecha na mão de um guerreiro, muitas vezes a diferença entre a vida e a morte.
Eles honram os seus pais na sua velhice, proporcionam dignidade no final de suas existências terrenas. E repetem o círculo virtuoso da instrução que receberam de seus pais:
“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Provérbios 22. 6).
Não se desviar do caminho inclui não relaxar a disciplina:
“O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina.” (Provérbios 13. 24).
Nos tempos bíblicos, a porta da cidade era onde as coisas aconteciam. A porta era extremamente importante na vida das pessoas, pois ali elas se relacionavam no que diz respeito a questões sociais, administrativas e comerciais.
Era ali que se assentavam os reis em ocasiões especiais. Foi ali que Esdras leu e explicou a Lei aos Judeus. Era onde transações legais ocorriam. (I Reis 22.10; Neemias 8.1,3; Rute 4. 1).
À porta também era onde se apresentavam as demandas judiciais contra os filhos que não trilhavam o caminho da lei, e muitas vezes os pais eram envergonhados pela conduta repreensível, o mal testemunho de seus filhos.
Na família que tem a sua conduta definida por Deus não ocorrerá que os filhos venham a envergonhar os pais. E não apenas na porta da cidade, mas em todo lugar em que se apresentarem.
Deus é o Senhor da família
Os cap. 23 e 24 do livro de Josué narram o final do período de liderança do homem que conduziu Israel na conquista da terra prometida. Bem resumidamente o que aconteceu foi o seguinte:
“O Senhor Deus deixou que o povo de Israel vivesse em paz com os inimigos ao seu redor. Passou muito tempo, e Josué ficou bem velho. Ele chamou todo o povo de Israel, os conselheiros, os líderes, os juízes e os oficiais e disse: Eu já estou velho. Vocês viram tudo o que o Senhor, nosso Deus, fez com todas essas nações por causa de vocês. O Senhor tem lutado a favor de vocês.” (23.1,2)
A família que tem Deus como seu Edificador, vive de acordo com a vontade de Deus e não precisa se envergonhar. Pode afirmar como Josué:
- “Decidam-se hoje a quem vão servir.” Porém,
“Eu e a minha família serviremos ao Senhor.”
Quer chegar à sua velhice em condições de afirmar como Josué? Então compreenda que Deus é o edificador da família;
Que Ele é guardador da instituição familiar;
Que só Ele é capaz de prover as necessidades familiares;
Que exercendo a mordomia na criação de seus filhos, eles se tornarão verdadeiros galardões do Senhor e farão seu coração encher-se de alegria por suas realizações;
Que ao permitir que a Palavra divina defina as condutas familiares, seus filhos serão tão importantes para você como as flechas eram para os guerreiros da antiguidade.
Mas principalmente renda-se à vontade do Todo Poderoso, tornando-se instrumento d’Ele para bênção na vida de sua família.
Pr. Aílton Sudário

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