O que o episódio com o avião da Flydubai nos ensina sobre medo, coragem e fé

O que você faria se, a milhares de metros de altitude, descobrisse que a maior ameaça à sua vida não estava do lado de fora do avião, mas dentro da própria cabine de comando?

Foi o que aconteceu com as pessoas a bordo do voo FZ1073, da companhia Flydubai, no dia 30 de setembro de 2026. O avião decolou de Dubai com destino a Israel, mas, durante o percurso, o copiloto atacou violentamente o comandante com uma faca, dentro da cabine de comando.

A aeronave entrou em queda livre, descendo cinco mil metros de altitude em poucos segundos. O comandante Smit Machchhar, mesmo ferido, conseguiu resistir ao ataque e destravar a porta da cabine. Foi então que passageiros e tripulantes entraram em ação para conter o agressor.

Entre os passageiros estava Yaniv Hayoun, que conseguiu imobilizar o copiloto. Outros passageiros também participaram da intervenção. Um médico prestou atendimento ao comandante ferido. Dois outros pilotos que estavam a bordo ajudaram a recuperar o controle da aeronave. O avião foi desviado e realizou um pouso de emergência na Arábia Saudita. Uma tragédia foi evitada.

Esse episódio nos leva a refletir sobre como, em situações-limite da vida, o medo se transforma em coragem; a apatia, em fé. Aquele avião se tornou, por alguns minutos, um laboratório involuntário daquilo que existe de mais complexo no ser humano.

O medo é uma emoção fundamental para a sobrevivência humana. Por mais paradoxal que essa afirmativa pareça, quando percebemos uma ameaça, nosso organismo reage rapidamente e aciona seus mecanismos biológicos e psíquicos para lidar com situações de ameaça. É a conhecida resposta de luta ou fuga. É o medo que nos mobiliza para a ação.

Mas o medo também paralisa. O corpo está diante do perigo, a mente percebe a ameaça, mas a ação não acontece. Ele pode estreitar o nosso campo de percepção e fazer com que enxerguemos apenas o perigo, a ameaça e a possibilidade de morte. A atenção fica concentrada naquilo que nos assusta.

É aí que surgem os heróis. O herói não é quem não tem medo, mas aquele que, mesmo com medo, avança. Se não houvesse risco, não precisaríamos de coragem. Se não houvesse medo, não precisaríamos superá-lo.

Mesmo ferido, o comandante encontrou forças para resistir ao agressor e abrir a porta da cabine. Mesmo em pânico, o passageiro israelita invadiu a cabine e conteve o agressor. Os heróis nascem quando as circunstâncias exigem.

É nesse ponto que a fé surge. Não como ausência do medo, mas como a convicção de que, mesmo em situações-limite, temos algo além das circunstâncias em que confiar. Para quem crê, não é difícil perceber a singularidade de uma circunstância: naquele avião estavam dois pilotos que viajavam como passageiros e que puderam ajudar a recuperar o controle da aeronave e realizar o pouso em segurança. Para quem tem fé, nada é por “acaso”.

Mas, além de serem movidas pela coragem que nasce do medo, essas pessoas foram movidas pela fé. A Bíblia traz uma incrível afirmação sobre medo, fé e amor:

“No amor não há medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo.” (1 João 4.18)

O amor pode impedir que o medo seja o único comandante das nossas decisões. Quando a vida de centenas de pessoas está em jogo, nossas escolhas podem mudar. Quando acreditamos que a vida do outro possui valor, podemos encontrar forças para fazer aquilo que, sozinhos, talvez não fizéssemos. Nesse caso, somos mobilizados pelo amor ao próximo. Nossos valores são testados quando custam alguma coisa.

O avião da Flydubai é uma metáfora de nossas vidas. Das turbulências dentro das famílias. Dos nossos medos internos. Dos sentimentos que não conseguimos controlar. Da ansiedade que nos domina. Do ressentimento que alimentamos. Do orgulho que impede um pedido de perdão. Da necessidade de termos sempre razão. Da incapacidade de reconhecer a dor do outro.

Em momentos assim, também precisamos decidir quem estará no comando de nossos sentimentos. Porque a vida também nos coloca diante de situações para as quais não estamos preparados.

O medo pode até entrar na cabine e tentar assumir o controle. Mas, quando a coragem, o amor e o compromisso com a vida do outro encontram espaço dentro de nós, o medo pode deixar de ser o piloto.

E a fé e o amor podem assumir o comando.

Pr. Hélio Alves

Pastor da Primeira Igreja Batista de Governador Valadares, psicólogo, professor universitário e presidente da Junta de Educação do Colégio Batista Mineiro.

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