É comum, no cenário cristão, associar comportamento a uma espiritualidade saudável. A conversão, muitas vezes, é reduzida a uma mudança de hábitos, e até a pregação segue essa linha: “venha para a igreja para mudar isso ou aquilo”. Com o avanço de uma cultura voltada ao bem-estar, essa percepção tem sido ainda mais reforçada. 

É claro que há algo positivo nisso. No entanto, surge uma preocupação recorrente na história: o poder que a cultura exerce sobre a fé. 

Se a espiritualidade for medida apenas pelo comportamento, enfrentaremos um problema de atuação. Basta que alguém replique determinadas atitudes para ser visto como santo. E isso é possível: alguém pode deixar de mentir por medo ou recompensa, ou agir corretamente apenas porque faz sentido ou traz benefícios. 

Nesse cenário, criamos personagens. Pessoas que fazem o que é certo sem compreender o porquê, ou até compreendem, mas são movidas por motivações distantes do Reino de Deus. Tornam-se apenas éticas e morais na aparência. Mesmo imitar os comportamentos de Cristo, por si só, não é suficiente. 

A mensagem do evangelho é diferente. Toda mudança de comportamento precisa começar no coração. A motivação revela mais do que a ação. O apóstolo Paulo afirma que, ainda que alguém entregue o próprio corpo, sem amor isso nada vale. A ação, sem a motivação correta, perde seu sentido.  Essa motivação é fruto da ação do Espírito de Deus.

Vivemos como vivemos porque somos movidos por Ele. No diálogo de Jesus com Nicodemos, isso fica claro. Nicodemos reconhece os sinais de Jesus, mas seu foco está no fazer: “Mestre, sabemos que ensina da parte de Deus, pois ninguém pode realizar os sinais miraculosos que estás fazendo, se Deus não estiver com ele”. Mas a resposta de Jesus não trata do que fazer, e sim do que é necessário ser, e a mudança do ser é tão radical que Jesus chama de nascer de novo. Nicodemos pensa em termos de ação externa; Jesus aponta para transformação interna. Não se trata do que fazemos por Deus, mas do que Deus faz em nós. 

Por isso, que nossa busca seja por um coração transformado. Não podemos nos contentar com mudanças externas nem inverter a ordem do evangelho. Primeiro, os afetos são alinhados, os amores reorganizados; depois, as ações refletem essa nova realidade.  É assim que viveremos, de fato, uma vida de boas obras em Cristo Jesus. 

André Filipe
Presidente da Jubam
Pastor Auxiliar
Igreja Batista Memorial em Governador Valadares

Tags:

No responses yet

Leave a Reply

× ENTRE EM CONTATO