Imagine por um momento que o templo onde sua igreja se reúne deixe de existir como igreja. Em seu lugar, funcione um shopping, uma livraria ou qualquer outro empreendimento. Parece algo distante? Talvez. Mas a história mostra que isso pode acontecer quando uma geração deixa de transmitir à próxima aquilo que recebeu de Deus.

O livro de Juízes apresenta uma das declarações mais alarmantes das Escrituras. Após a morte de Josué e dos líderes que testemunharam os grandes feitos do Senhor, lemos: “surgiu uma nova geração que não conhecia o SENHOR e o que ele havia feito por Israel” (Jz 2.10). O resultado foi imediato: “os israelitas fizeram o que o SENHOR reprova” (Jz 2.11).

O texto não significa que aquela geração desconhecia intelectualmente a existência de Deus. Eles sabiam quem era o Deus de Israel. O problema era outro: faltava-lhes uma experiência pessoal e viva com o Senhor. Não haviam experimentado de primeira mão sua atuação, seu poder e sua presença. A fé havia se tornado apenas uma herança cultural, e não uma convicção do coração.

Esse cenário não está tão distante de nós. Em 2017, quando se completaram 500 anos da Reforma Protestante, diversas reportagens mostraram antigas catedrais europeias transformadas em hotéis, bibliotecas, restaurantes e até casas de entretenimento. Lugares antes cheios de adoradores tornaram-se monumentos históricos sem vida espiritual. A fé não foi transmitida de maneira eficaz às gerações seguintes.

A Bíblia nos mostra repetidamente a importância da influência geracional. Abraão foi chamado de pai da fé; seu filho Isaque teve uma trajetória muito mais discreta; Jacó, seu neto, ficou marcado por seus enganos. Davi foi um homem segundo o coração de Deus; Salomão começou bem, mas terminou distante do Senhor; Roboão contribuiu para a divisão do reino. Muitas vezes, a decadência espiritual percorreu gerações inteiras.

Por isso Deus ordenou ao seu povo: “Contem-nas a seus filhos e a seus netos” (Dt 4.9). Os feitos do Senhor não deveriam permanecer apenas na memória de quem os testemunhou. Precisavam ser narrados, ensinados e vividos diante das novas gerações.

Um dos exemplos mais tristes é o do rei Ezequias. Ao ouvir que seus descendentes sofreriam no futuro, ele se conformou pensando: “Haverá paz e segurança enquanto eu viver” (Is 39.8). Sua preocupação limitou-se à sua própria geração.

O desafio da igreja continua o mesmo. Não basta transmitir conhecimento bíblico; precisamos compartilhar experiências reais com Deus. Nossos filhos e netos precisam ver em nós uma fé autêntica, um compromisso sincero e uma vida transformada pelo evangelho.

A maior herança que podemos deixar não é um patrimônio, uma profissão ou um legado de conquistas. A maior herança que podemos transmitir à próxima geração é o próprio Senhor. E essa transmissão acontece, acima de tudo, por meio do nosso exemplo. Afinal, a fé que sobreviverá amanhã é aquela que estamos vivendo hoje.

Pr. Ismael Arêdes – casado com Eilan Rodrigues de Oliveira Arêdes, pai do Estevão. Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Pós-graduado em Filosofia. Pós-graduado em Gestão Estratégica de pessoas. Graduando em psicologia. É pastor na Igreja Batista Central no Palmeiras/Bh.

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